Atualizado em setembro de 2026.
Importar da China vale a pena quando a conta fecha, e ela não fecha sozinha. Na primeira importação formal que o Vitor simulou em agosto de 2026, o mesmo produto dava −4,5% de margem de contribuição com o frete de tabela do fornecedor, 5,8% com um frete melhor e 19,2% só no cenário com frete e preço de volume negociados, o único em que a conta fecha. Importar não dá lucro automático: tem de garimpar, negociar e comprar em volume.
E existe uma regra antes de qualquer cotação: quem ainda não vende não deve importar. O dinheiro fica parado de um mês, se a carga vier de avião, a três meses, se vier de navio, e o produto chega numa conta sem reputação. Importação é o passo de quem já vende no Mercado Livre, na Shopee ou numa loja e quer mais margem.
No vídeo acima, o Vitor abre os números da primeira importação da operação nova dele. A maior parte do que aparece no Google para essa busca ensina a burocracia. Aqui o foco é a conta, inclusive a que quase não fechou.
Por que importar: R$ 72,80 que viram R$ 55 no Mercado Livre
A operação nova do Vitor começou a vender em março de 2026 e chegou a R$ 100 mil por mês em julho. O problema: “o lucro que sobra no final é muito pouco sendo revendedor”. Uma venda de R$ 72,80 no Mercado Livre pagou 13% de comissão e R$ 7,75 que o painel mostra como custo de envio (abaixo de R$ 79, é a tarifa por unidade, que varia com peso e dimensão). Sobraram R$ 55, e ainda faltava pagar produto, imposto e embalagem. A conta completa do canal está em taxas do Mercado Livre.
A taxa do marketplace é igual para todo mundo. O que muda de um vendedor para outro é o custo do produto. Quem compra no atacado um produto que vem da China compra de quem importou, com um atravessador no meio. Importar é tirar esse atravessador da única linha da conta que o marketplace não controla.
O teste antes: 50 unidades e o erro que a contadora apontou
O primeiro passo do Vitor foi pequeno e, nas palavras dele, “do jeito errado, que é como a maioria começa”: 50 unidades compradas no AliExpress, no CPF, por R$ 395, ou R$ 7,90 cada, com imposto embutido, frete grátis e um cupom especial.
O erro foi contábil: a empresa dele vende com nota fiscal, então havia nota de saída sem nota de entrada. A contadora mandou não repetir. Como teste de demanda, funcionou: das 50 unidades, 25 já tinham vendido, em kit de 5, como os concorrentes anunciavam. Vendendo abaixo da concorrência, que cobrava R$ 82, a margem de contribuição foi de 13,9%. A R$ 78,99 iria a 18,9%. Ele não quis passar de R$ 79 porque, acima disso, o vendedor passa a pagar parte do frete.
O R$ 7,90 do varejo com cupom não serve de referência de custo. Serviu para uma coisa: provar que o produto vende.
A conta da importação formal: −4,5%, 5,8% ou 19,2%
Com o produto validado, o Vitor cotou a compra formal, em volume e no CNPJ, num site de fornecedores chineses e numa plataforma que agrega compras da China. A primeira cotação deu prejuízo. O vilão foi o frete: para um produto de cerca de 1 grama, o frete do fornecedor fez o custo por unidade sair maior que o do varejo no CPF.
| Cenário da importação formal | O que mudou | Margem de contribuição |
|---|---|---|
| Preço e frete de tabela do site | Nada negociado | −4,5% |
| Frete melhor | Frete da plataforma agregadora, bem menor | 5,8% |
| Frete e preço de volume negociados | Compra maior e negociação direta com o fornecedor (a meta dele) | 19,2% |
“Importar não é um negócio óbvio.” Os preços que aparecem no site por padrão deram prejuízo ou margem de fome. Só o terceiro cenário faz sentido, e ele não está na vitrine: sai de ir atrás do fornecedor, negociar e descobrir qual volume derruba o preço do produto e o do frete.
Se a compra formal no CNPJ sai mais cara por unidade que o varejo no CPF, desconfie da cotação, não da importação.
O que muda a margem: frete, volume e o jeito de pagar o fornecedor
A terceira alavanca quase ninguém olha: a forma de pagamento. Na tela do Vitor, o mesmo pedido saía por R$ 18.088 no cartão, com câmbio pior, IOF de 3,5% e taxa de processamento. No Pix, ficava mais barato. Por transferência internacional com câmbio comercial, R$ 17.370: mais de R$ 300 a menos que o Pix e R$ 718 a menos que o cartão. Câmbio, IOF e taxas são do dia da gravação e mudam; o método fica: simule as formas de pagamento antes de fechar.
Quem ainda não deve importar
O Vitor é direto: importação não é para todo mundo. Se você ainda não vende em lugar nenhum, o primeiro passo é outro: fornecedor local, validar produto, aprender as regras e as taxas do marketplace, montar a estrutura de impressora e embalagem.
O motivo é o dinheiro parado. Enquanto a carga viaja, quem começou com fornecedor local já está aquecendo a conta. Quem importou primeiro recebe o produto numa conta sem reputação e precisa aprender a vender do zero. E importar só compensa em volume, o que aumenta o risco de quem nunca vendeu. O Vitor só importou depois dos R$ 100 mil por mês, com caixa, time e produtos que já giravam. Se você ainda está decidindo por onde começar a vender, leia marketplace ou loja virtual.
Como escolher o produto: comece pelo seu cliente
São dois caminhos: achar na China, mais barato, o mesmo produto que você já compra no Brasil, ou ampliar o mix do nicho que você já atende. O Vitor não parte do que está bombando. Ele parte dos próprios pedidos: exportou as vendas de março a agosto do Mercado Livre e da Shopee e pediu para uma IA separar os clientes por nicho. Saíram 8. O que mais faturava não era o de maior ticket nem o que mais voltava a comprar. Mais usos assim estão em IA para e-commerce.
Com o nicho escolhido, a lista de produtos vem dos vendedores que lideram esse nicho no Mercado Livre. Para priorizar, olhe faturamento mensal, número de pedidos e quantidade de concorrentes. Sem ferramenta paga, dá para usar o contador de vendas do anúncio, com três armadilhas:
- O número é acumulado desde que o anúncio foi ao ar. Mil vendas em cinco anos não é o mesmo que mil vendas em seis meses.
- O produto anunciado pode não ser o que chega. Confira nas fotos das avaliações o que o cliente recebeu.
- O mais barato da China pode ser ruim. Leia as reclamações: produto ruim gera avaliação ruim, e isso pode derrubar o anúncio.
Um truque do vídeo: nas fotos das avaliações às vezes aparece a caixa original com o código do modelo. É isso que você pesquisa no site do fornecedor.
Preço máximo de compra: a conta de trás para frente
Antes de abrir qualquer site chinês, calcule quanto você pode pagar. “É uma conta de trás para frente”, diz o Vitor. No exemplo dele, uma cafeteira que o concorrente vende a R$ 60,97 no Mercado Livre:
- Preço do concorrente: R$ 60,97.
- Menos a comissão: 12% no exemplo dele, dentro da faixa do anúncio Clássico (10% a 14% em setembro de 2026).
- Menos a tarifa por unidade, que abaixo de R$ 79 depende do peso.
- Menos o imposto sobre a venda: 8,5% em média, na empresa dele.
- Menos embalagem e etiqueta: cerca de R$ 0,30.
- Menos a margem mínima que você aceita.
- O que sobra é o custo máximo por unidade, já com frete internacional e tributos da importação.
Com custo de R$ 20, sobrariam 33% de margem de contribuição. Subindo o custo até a margem bater 15%, o teto ficou em R$ 31. “Não dá para ter menos do que isso importando. Bota a régua para cima.” Achou o produto por menos de R$ 31 posto no Brasil, vale estudar; senão, próximo da lista. Como a margem muda de um marketplace para outro, refaça a conta para cada canal. A regra geral está em como precificar um produto por canal, e a conta pedido a pedido, em margem de contribuição.
Como importar da China: o caminho, sem atalho
- Compra no varejo internacional, no CPF. Serve para testar demanda, como o Vitor fez. Segue o regime de remessas internacionais, o da Lei 14.902/2024, e no CPF não gera a nota de entrada que a empresa precisa para revender com nota.
- Plataforma pronta de importação. Foi o caminho que o Vitor escolheu para a primeira compra formal: a plataforma faz a importação, a carga chega na empresa com nota fiscal de entrada e o suporte é em português. O frete de contêiner compartilhado saiu mais barato que nos outros sites que ele cotou. Condições de pagamento variam de plataforma para plataforma.
- Direto com o fornecedor, com despachante aduaneiro. Exige a habilitação da empresa no Radar, feita no Portal Único Siscomex com o seu contador (a regra está na IN RFB 1.984/2020, e a modalidade define quanto a empresa pode importar). Para o Vitor, é o segundo passo, de quem já importa.
Antes de fechar o pedido: MOQ, certificação e DIFAL
MOQ e o frete mais caro que o produto
MOQ é a quantidade mínima de compra do fornecedor, e ela derruba muito plano. A cafeteira campeã que o Vitor queria exigia milhares de unidades. Ele trocou por um modelo parecido que aceitava 100, perto de R$ 5.900 no total na simulação dele. “A gente não precisa importar produto campeão. A gente precisa importar algo que faça sentido.” O frete é a outra surpresa: numa primeira importação por avião que o Vitor analisa em outro vídeo, o frete saiu mais caro que a mercadoria.
Certificação: Inmetro, Anatel, Anvisa
Muitos produtos só entram no Brasil com certificação ou registro, como brinquedos, cosméticos, remédios e vários eletrônicos. Antes de fechar, pergunte à IA e ao seu contador e consulte o Portal Único Siscomex. Na primeira vez, o Vitor escolheu de propósito um produto sem regulamentação: leve, pequeno e sem órgão regulador.
Imposto e DIFAL: confirme com o seu contador
Na importação formal entram tributos federais, o ICMS do estado, taxas aduaneiras e armazenagem. As alíquotas dependem da classificação do produto (NCM): peça a conta ao contador, não use a porcentagem que alguém falou num vídeo. Fique atento ao DIFAL, que pode aparecer quando a carga entra por um estado e é entregue em outro. O Vitor foi de navio: a carga chega ao porto de Itajaí, no mesmo estado da empresa dele, e por isso ele não conta com DIFAL nessa compra.
Enquanto a carga viaja, deixe o anúncio cadastrado e pronto. Produto que chega e espera semanas por cadastro é dinheiro parado de novo.
Perguntas frequentes
Vale a pena importar da China para revender?
Vale para quem já vende e sabe quais produtos giram, com a conta feita antes da compra. Na simulação do Vitor, o mesmo produto ia de −4,5% a 19,2% de margem só mudando frete e volume. Para quem ainda não vende, o risco de dinheiro parado é alto demais.
Pessoa física pode importar para revender?
Comprar no CPF serve para testar demanda, mas não fecha para revenda com nota fiscal: a empresa vende com nota de saída sem ter nota de entrada. Foi o erro que a contadora do Vitor apontou. Para revender, importe pelo CNPJ e alinhe o regime com o seu contador.
Precisa de Radar para importar da China?
Para importar direto, no nome da empresa, sim: a habilitação no Radar é feita no Portal Único Siscomex. Quem compra por uma plataforma pronta de importação, que faz o desembaraço e entrega com nota de entrada, pode começar sem Radar próprio, como o Vitor fez.
Quanto custa importar da China?
Depende do produto, do volume, do frete e dos tributos, que variam conforme o NCM. Some produto, frete internacional, tributos, taxas aduaneiras, armazenagem e o custo da forma de pagamento, e compare com o preço máximo de compra que você calculou a partir do concorrente.
O que é MOQ?
É a quantidade mínima que o fornecedor aceita vender num pedido. Produto campeão costuma ter MOQ de milhares de unidades. Para a primeira compra, procure fornecedores ou modelos que aceitem lotes pequenos, de cerca de 100 unidades.